Quinta, 19 Julho 2018
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A ONU na sua língua

Eu sou ONU

Nesta secção pode conhecer alguns dos portugueses que colaboram, trabalham ou participam em campanhas no universo das Nações Unidas. Desde o Secretariado da ONU, às agências especializadas, passando pelos Programas, Fundos e Comités, até às Missões de Paz são muitos os cidadãos portugueses que todos os dias contribuem para o funcionamento da maior organização internacional do mundo. Saiba mais sobre os seus percursos e experiências que contribuem para um mundo mais pacífico, mais igualitário e mais sustentável.

Catarina Furtado: “Precisamos de ter uma maior consciência das profundas desigualdades que existem.”

Catarina Furtado

BI:

 Nome: Catarina Furtado

 Profissão: Comunicadora, atriz e autora

 Outras funções: Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População ( UNFPA). Presidente e fundadora da ONGD - Associação Corações Com Coroa (CCC) 

 Naturalidade: Lisboa

Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, o UNFPA, há 17 anos, Catarina Furtado tem dedicado grande parte da sua vida e do seu trabalho a causas sociais e solidárias.  Em entrevista à ONU Portugal, a também apresentadora de televisão atriz, autora, ativista, mãe, entre muitas outras coisas, explica a sua ligação com as Nações Unidas, o trabalho que tem desenvolvido com o UNFPA nos últimos anos e partilha algumas das suas principais preocupações em algumas das grande áreas de atuação da ONU.

ONU Portugal: Quando e como começou esta relação tão próxima com as Nações Unidas?

Catarina Furtado: Foi através de um convite que recebi do então Secretário Geral da ONU, Kofi annan no ano 2000, depois de por indicação da então Directora Executiva do UNFPA - Senhora Toraya Obaid,  ter sido entrevistada por um enviado  que veio a Portugal com o intuito de, através de contacto com a Associação para o Planeamento da Família, identificar a porta-voz portuguesa  para uma campanha mundial sobre saúde sexual e reprodutiva que aconteceu em 1998 e que se chamava Face to Face. Nessa longa tarde, abordámos vários temas, partilhei as minhas opiniões e inquietações cívicas.

Passados uns tempos, já em 2000, fui contactada novamente pela  Sra. Toraya Obaid / UNFPA e nessa altura recebi então uma carta oficial de Kofi annan a fazer o convite formal para abraçar esta missão voluntária e participar numa reunião de trabalho de Embaixadores de Boa Vontade e Mensageiros da Paz, que teve lugar na sede das Nações Unidas em 2001. Foi com enorme alegria e sentido de responsabilidade que vivi este momento. Cargo esse que tem sido renovado pelos sucessivos Directores do UNFPA e Secretários-Gerais da ONU. Com o anterior SG Ban Ki moon, fui considerada uma das personalidades "Campeãs dos ODM". Tem sido uma aprendizagem constante e um desafio diário.

Quais são as suas principais responsabilidades enquanto embaixadora das Nações Unidas para o Fundo da População?

Efectivamente o que é esperado de nós é que ponhamos determinados assuntos nas agendas públicas e políticas no quadro do que é o Plano de Ação da CIPD e das conferências e compromissos que sucederam a esta importante conferência das Nações Unidas e mandato do UNFPA: igualdade de oportunidades e de género, as questões da não discriminação e não violência, da inclusão social, da saúde sexual e reprodutiva e direitos reprodutivos, da participação dos jovens e dos direitos das meninas e raparigas, da saúde materna, das práticas nefastas contra a saúde das raparigas e das mulheres, dos casamentos infantis e forçados, combinados ou precoces, da mutilação genital feminina, etc..  

Faz parte da nossa missão ir às escolas falar sobre estas temáticas, estar presente, participar e co-organizar reuniões de trabalho com os decisores políticos e não só, trabalhar com os meios de comunicação social, promover campanhas de angariação de financiamentos para determinados projectos, participar em debates e conferências a convite do UNFPA e outras, em linha com a nossa missão. Visitar projectos em diferentes contextos geográficos e fazer contactos com governantes locais e diferentes meios de comunicação social. No fundo, é tornar mais visíveis as causas e as iniciativas do UNFPA.

Catarina Furtado

Pode falar-nos um pouco sobre o trabalho que tem vindo a desenvolver nos últimos 17 anos em parceria com a ONU?

Tenho feito um trabalho permanente com os diferentes decisores políticos e também junto das escolas. Enquanto Embaixadora de Boa Vontade do UNFPA tenho participado como oradora em reuniões internacionais e regionais, campanhas internacionais a convite do UNFPA e/ou por ele indicada; tenho visitado alguns países e projectos onde o UNFPA trabalha e tem influência decisiva na melhoria da vida das populações, sobretudo das mulheres e jovens;  tenho participado em conferências na Assembleia da República e co-apresentado o Relatório sobre a situação da População Mundial, entre muitas outras iniciativas também na sede das Nações Unidas em Genebra e em Nova Iorque como aconteceu em Março aquando da sessão da Comissão da Conidção das Mulheres. Enquanto documentarista, tenho tentado dar a visibilidade  devida a estas questões através da realização de documentários na RTP, quer para o programa Príncipes do Nada quer para a série Dar vida sem Morrer, para que a população  em geral perceba a importância que estes projectos implementados no terreno nos países em desenvolvimento, têm para o exercicio  dos direitos humanos e vivência da dignidade para todas as pessoas. Nascer com saúde e com direitos não pode ser um privilégio de algumas mulheres e crianças, mas sim um direito pleno para todas as pessoas em todo o mundo, nomeadamente através do acesso a cuidados de saúde ( e saúde sexual e reprodutiva) e de educação. 

Há 6 anos fundei em Portugal a ONGD Corações Com Coroa (CCC) onde trabalho exactamente as mesmas áreas que abraço no UNFPA: igualdade de oportunidades e de género, não discriminação, não violência, inclusão social. Com a CCC e outras ONG portuguesas acolhi em Lisboa (2014) a Exposição "Novas Demais para Casar" que esteve na sede da CGD,  a primeira exposição sobre o tema dos casamentos infantis em Portugal e também co-produzimos e participámos na Campanha "Continuamos à Espera" sobre a Agenda 2030. Há dois anos escrevi um livro que é também um contributo para a abordagem destas questões na medida em que partilho muitas experiências vividas em cerca de 10 países em desenvolvimento,onde estive várias vezes, " O que vejo e não esqueço" da editora Esfera dos Livros.

Na sua opinião, de que forma podemos contribuir, enquanto cidadãos, para que consigamos alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e para que a Agenda 2030 seja uma realidade no médio prazo?

Procurar saber mais e para melhor fazer; rever os nossos comportamentos e atitudes; colocar-nos no lugar da outra pessoa (mesmo de outra geografia ou cultura); apoiar e participar  na construção de sociedades mais justas e solidárias; fazer todos os dias mais pelo empoderamento de meninas e mulheres;  ser cidadã atenta e comprometida; fazer da não discriminação e não violência, uma norma individual e colectiva.

Precisamos de ter uma maior consciência das profundas desigualdades que existem. Saber que o acesso universal à educação e saúde não é uma realidade em todos os países, faz a diferença! Saber que morrem por dia meninas e mulheres apenas porque nasceram Mulher num tempo e geografia que as desvaloriza ou invisibiliza. Mortes evitáveis!

Os dados relativos à gravidez adolescente, mutilação genital feminina,  casamentos infantis,  mortes maternas, são assustadores, no entanto o investimento nestas áreas é mínimo, quando comparado com o investimento em armamento ou tecnologia de defesa.

 Catarina Furtado

Que conselho daria a todos os que nos estão a ler e que querem abraçar uma carreira na área da cooperação internacional e ajudar a promover a sustentabilidade do nosso planeta?

 Sejam preserverantes, sejam resilientes, percebam que a humanidade é uma partilha constante e sobretudo percebam que o que fizerem aqui terá impacto ali e vice-versa. A Cooperação Internacional não é apenas o trabalho de diplomatas, Ministérios de Negócios Estrangeiros, relações exteriores ou das grandes conferências mundiais, a Coooperação Internacional faz-se e exercita-se no quotidiano através do empoderamento e da promoção da  igualdade de todas as pessoas, sem deixar ninguém para trás. É necessário rever os nossos padrões de actuação e consumo de bens culturais e outros.

Uma relação de 17 anos é um laço muito maduro. Poderemos continuar a contar com o seu contributo?

Com toda a certeza. Esta é uma missão que mudou a minha vida e a forma como encaro o meu papel enquanto figura pública, cidadã, mulher e até mãe. Estarei com esta missão com o UNFPA até que a entendam manter.

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