Seis meses depois do tremor de terra sem precedentes que atingiu o Haiti, os desafios da reconstrução continuam a ser enormes, nomeadamente em matéria de emprego, de educação e de abrigo seguro, comprovou o Secretário-Geral Adjunto para os Assuntos Humanitários, John Holmes, em visita ao país, para fazer um balanço da situação.
“Os desafios com os quais nos vemos confrontados continuam a ser consideráveis e exigem que prossigamos os nossos esforços ainda com mais determinação”, declarou o Representante Especial do Secretário-Geral para o Haiti, Edmond Mulet, numa cerimónia de comemoração da catástrofe de 12 de Janeiro. “Independentemente do que se possa dizer por vezes, muito se fez já, mas as tarefas a realizar são tão vastas e tão numerosas que não temos um momento a perder”.
Em primeiro lugar, é preciso proteger as pessoas, o mais rapidamente possível, contra as intempéries e as tempestades que se aproximam, bem como contra a insegurança. A seguir, é indispensável prosseguir a estabilização democrática do país, graças à organização de eleições transparentes e credíveis. Por último, é preciso continuar a lutar pela instauração de um verdadeiro Estado de direito no Haiti, sublinhou Edmond Mulet.
Num relatório publicado hoje, o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) considera ser “imperativo não perder de vista o primeiro objectivo da acção humanitária: salvar vidas, reduzir vulnerabilidades e devolver a dignidade”.
John Holmes deveria encontrar-se, hoje, com membros do Governo e representantes de organizações não governamentais bem como com a comunidade de doadores. Deveria também visitar um campo de deslocados que acolhe mais de 48 000 pessoas, a fim de chamar a atenção para a situação das pessoas vulneráveis e a necessidade de fundos adicionais para que as operações humanitárias prossigam.
Apesar das condições da intervenção, extremamente complexas, cerca de 4 milhões de pessoas receberam ajuda alimentar, 1,5 milhões beneficiaram de um abrigo de emergência e um milhão foi abrangido por programas de emprego.
Segundo o Governo haitiano, morreram 222 570 pessoas, quando do sismo. Ficaram feridas 300 572 e 1,5 milhões vivem ainda em abrigos precários. Mais de 188 000 casas foram danificadas e 105 000 foram completamente destruídas.
Os 1,5 milhões de deslocados precisam de uma solução urgente e de abrigo duradouro, sublinhou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O relatório revela que 604 215 pessoas abandonaram a capital, na sequência do tremor de terra, e que 160 000 se instalaram na fronteira com a República Dominicana.
O OCHA estima que 80% das escolas de Port-au-Prince tenham sido destruídas. Mais de 1,5 milhões de crianças foram directa ou indirectamente afectadas pela catástrofe, entre as quais figuravam 720 000 com idade compreendida entre os 6 e os 12 anos.
“O tremor de terra no Haiti foi uma catástrofe para as crianças e essas catástrofe ainda não acabou”, disse o Director-Geral do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Anthony Quake. “A UNICEF e os seus parceiros trabalham sem descanso, todos os dias, para salvar vidas e ajudar as crianças a tomarem o seu destino nas mãos”, acrescentou.
O relatório do OCHA revela que 173 000 crianças são exploradas como trabalhadores domésticos e 50 000 crianças colocadas em centros continuam separadas das suas famílias. A UNICEF fornece água potável a mais de 1,2 milhões de pessoas e mais de 275 000 crianças foram vacinadas contra as principais doenças.
Os programas de nutrição alimentam mais de 500 000 pessoas com necessidades especiais – menores de cinco anos e mães que amamentam filhos – e cerca de 200 000 que sofrem de malnutrição aguda beneficiam de uma alimentação terapêutica e de cuidados de uma importância vital. No total, aproximadamente 500 000 crianças receberam material didáctico elementar e 2300 professores e 3000 agentes educativos receberam formação especial.
Numa altura em que a estação dos furacões já começou, o Programa Alimentar Mundial (PAM) preparou-se para fazer face a novas situações de emergência. Assim, armazenou alimentos suficientes para 1,1 milhões de pessoas, durante seis semanas.
“Temos de manter um equilíbrio entre a ajuda alimentar aos mais vulneráveis e a necessidade de não destabilizar o mercado local, nem de excluir os produtores e agricultores haitianos”, sublinhou a Directora do PAM no Haiti, Myrta Kaulard.
Durante a cerimónia comemorativa da catástrofe, Edmond Mulet recordou que 102 membros do pessoal da ONU haviam perecido no terramoto. “Que as lágrimas e as recordações não nos impeçam de prosseguir o nosso trabalho, com tristeza mas com maior determinação do que nunca de realizarmos a nossa tarefa”, disse.
(Baseado numa notícia divulgada pelo Centro de Notícias da ONU a 12/07/2010)