Milhares de haitianos começam a regressar a um pouco de normalidade após o terramoto devastador no seu país, obtendo um emprego e reconstruindo os seus bairros, no âmbito de um programa dirigido pelas Nações Unidas que lhes assegura uma remuneração em troca de trabalho.
A iniciativa, coordenada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como parte do seu Quadro de Socorro de Emergência e Recuperação, está a dar trabalho a 11 500 pessoas, cuja remuneração corresponde ao salário mínimo legal de 150 gurdes (equivalente a 4 dólares) por meio dia de trabalho. O objectivo é pôr 100 000 pessoas a trabalhar o mais rapidamente possível, aumentando este número para 220 000 à medida que as condições o forem permitindo
"Há um milhão de haitianos nas ruas que perderam as suas casas", disse Kim Bolduc, Coordenadora de Assuntos Humanitários das Nações Unidas e Representante Especial Adjunta do Secretário-Geral, numa declaração divulgada hoje. "Precisamos de iniciar programas deste tipo, susceptíveis de satisfazer as necessidades mais imediatas e de envolver os haitianos no processo de reconstrução".
O projecto dá prioridade a mulheres com a família a seu cargo, especialmente aquelas cuja habitação foi destruída e que perderam membros da família.
Dominique Charles é uma mãe de 21 anos que perdeu a casa que tinha no bairro de Carrefour Feuilles, em Port-au-Prince. É uma das 1 500 pessoas do seu bairro que actualmente têm trabalho.
"Estou a trabalhar para os meus três filhos", disse Dominique Charles ao PNUD. "Para pôr comida em cima da mesa e garantir o seu bem-estar. Este programa permite-me fazer isso. Tenho capacidade de trabalhar e ganhar um pequeno salário".
O projecto produz um duplo benefício. Enquanto auferem um pequeno salário, os trabalhadores também prestam serviços fundamentais que o Governo não pode coordenar neste momento, tais como a remoção de escombros e entulho, bem como dos resíduos que se estão a acumular nas ruas.
"Também me permite fazer uma coisa que é importante para a minha comunidade", disse Dominique Charles, segurando numa pá. "Limpando estas ruas, os autocarros, a polícia, os carros dos bombeiros e as ambulâncias podem chegar até aqui. Depois do terramoto, ficámos completamente isolados".
Os benefícios deste trabalho em termos de saneamento são claros para Lenny Gibson, que também está a trabalhar para o programa em Carrefour.
"Gosto deste projecto por duas razões. Não só ganhamos algum dinheiro, como limpamos coisas. Já perdi o meu filho. Não quero perder mais ninguém por causa da falta de saneamento", declarou Lenny Gibson ao canal de televisão das Nações Unidas.
O Director do PNUD no Haiti, Eric Overvest, afirmou que, embora a primeira fase do programa vise a remoção de escombros das ruas bem como de resíduos susceptíveis de representar um risco para a saúde, os trabalhadores também estão a "limpar e restabelecer mercados públicos, acampamentos e zonas de lavagem comunitárias, de modo que a economia local possa recomeçar a funcionar o mais eficientemente possível".
A criação de empregos. tendo em vista a reconstrução de infra-estruturas, continua a ser um aspecto crítico dos esforços do PNUD para intensificar programas como a iniciativa "uma remuneração em troca de trabalho", que se destina a injectar dinheiro na economia haitiana, abalada pelo sismo.
O programa continua a debater-se com um problema de financiamento e de recursos, apesar do apoio da comunidade local e do apelo do Secretário-Geral Ban Ki-moon ao apoio internacional.
O PNUD lançou recentemente um apelo de urgência pedindo 35,6 milhões de dólares para fazer face às prioridades de recuperação imediatas, incluindo a remoção de escombros, a reabilitação de infra-estruturas básicas e actividades de reconstrução remuneradas. Este pedido insere-se num apelo de emergência mais amplo das Nações Unidas, destinado a obter 575 milhões de dólares, e neste momento apenas se encontra assegurado o financiamento de metade deste montante.
Além disso, o PNUD disse que o alargamento do programa está a ser dificultado pela necessidade de coordenar as acções com as autoridades locais e garantir que sejam criados sistemas para efectuar pagamentos e para assegurar a transparência e a gestão responsável dos fundos. Um outro obstáculo é a obtenção das botas, luvas, pás, picaretas e camiões necessários para remover entulhos.
Considerando as enormes dificuldades que já existem no Haiti, estes obstáculos parecem pequenos em comparação com a esperança que representam.
"Enquanto eu conseguir ver luz, terei esperança. O programa «uma remuneração em troca de trabalho» dá-nos uma oportunidade de ver qualquer coisa que não seja destruição. Traz-nos luz", disse ao PNUD Jacqueline Jean Baptiste, cuja casa em Carrefour foi arrasada pelo terramoto. "O trabalho permite-me dar de comer aos meus filhos. Não sei o que faria sem ele".
(Baseado numa notícia divulgada pelo Centro de Notícias da ONU a 26/01/2010)