Segunda, 01 Setembro 2014
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O movimento “Y’en a marre” – Basta

Yen-a-marre-3 webApesar do Senegal não ser um país de grandes dimensões nem possuir uma localização estratégica, tem tido, no entanto, um papel importante na política africana desde a sua independência. O Senegal, 95% muçulmano, continua a ser uma das democracias mais estáveis em África e demonstra a preferência por ser um Estado secular e pela harmonia religiosa tendo já eleito um cristão, Leopold Sedar Senghor, como primeiro presidente, em 1960. O Senegal foi depois governado pelo partido socialista durante 40 anos até Abdoulaye Wade ter sido eleito como presidente, em 2000, depois do “sopi” – movimento (“mudança” em wolof), e os resultados foram celebrados em todo o Senegal. Foi reeleito em 2007, mas durante os seus dois mandatos fez várias revisões à constituição do Senegal para aumentar o poder executivo e enfraquecer a oposição. Por último, a sua tentativa para alterar a constituição, em Junho de 2011, e a sua decisão em se candidatar a um terceiro mandato presidencial foi a gota de água final que desencadeou vastos protestos públicos e uma reacção pública negativa que conduziu à sua derrota, na segunda volta das eleições, em Março de 2012, contra Macky Sall.

Tudo começou a 16 de Janeiro de 2011, no apartamento do artista Fadel Barro, enquanto se bebia um chá forte, chamado de attaya, muito consumido em toda a África Ocidental. Dacar, capital do Senegal, tinha estado três dias sem electricidade, e os jovens que bebiam chá chegaram à conclusão de que o país estava à beira do desastre. O UNRIC entrevistou Aliou Sane, jornalista, membro fundador e porta-voz do movimento, que falou sobre como tudo começou.


Como é que nasceu o movimento “Y’en a marre”?
Estávamos a falar do facto de um grupo de imãs de Guediawaye ter-se mobilizado para falar contra os constantes cortes de electricidade. Por isso, dissemos a nós próprios que se os mais idosos estão a tomar uma posição, por que razão os jovens também não o fazem? Por isso, decidimos que tínhamos de fazer algo. Pensámos em fundar um novo partido político, mas rapidamente desistimos dessa ideia. Sentimos que era necessário um novo movimento e âmbito de expressão, que fosse inclusivo e aberto a todos. Achámos que a expressão “Y’en a marre” descrevia muito bem o sentimento geral da população e o nome foi logo consensual. Depois, redigimos um comunicado de imprensa, que enviamos à comunicação social, muitas vezes hesitante e relutante – de início não estavam de todo muito favoráveis. Depois, o processo avançou rapidamente. A palavra espalhou-se, o movimento ganhou atenção, e a 23 de Junho de 2011, as manifestações tornaram-se em tumultos e cerca de uma centena de pessoas foram feridas. Tudo foi muito noticiado, e quando as pessoas viram a forma como o governo lidou com o assunto, o movimento ganhou ainda mais apoiantes.

Como o “Y’en a marre” é composto por “rappers” conhecidos dos jovens, não é surpreendente que os mesmos tenham aderido. Como é que ganharam a atenção da população mais velha?
Os problemas que enfrentámos, e que continuamos a enfrentar, são comuns a todos. Os cortes de electricidade não dizem só respeito aos jovens, só para dar um exemplo, todos ficamos às escuras. Uma das nossas primeiras acções chamou-se “1000 queixas ao governo” e foi lançada na cidade de Rufisque. Todos tiveram uma palavra a dizer – os agricultores tinham um porta-voz, as mulheres, os jovens, etc. O “Y’en a marre” foi, e continua a ser, um movimento não só dos jovens, mas de todos aqueles que se preocupam com o futuro do país.

Um dos melhores exemplos da sua participação cívica foram as suas acções para que as pessoas se recenseassem para votar, e que não vendessem os seus cartões de eleitor e, assim, votos por dinheiro fácil. Como é que fizeram isto?
Antes das eleições, estimou-se que mais de um milhão de jovens não se tinha recenseado! Imagine que poder teriam se decidissem tornar-se activos. Por isso, demos início a um programa, o “Daas fanaanal”, com muitas intervenções direccionadas em várias áreas de Dacar, sob o lema “Jaay sa carte, jaay sa ngor” (Vender o teu cartão é vender a tua dignidade). Primeiro, organizamos marchas, mas foram logo interrompidas pela polícia. Por isso, dividimo-nos em pequenos grupos, e fomos aos bairros populares na cidade, armados com um conjunto de som a tocar o single do “Y’en a marre”. Fomos novamente parados e acusados de perturbar a ordem pública. Mas como Dacar e o Senegal possuem muitos rappers jovens com talento, o próximo passo foi colocar as nossas pessoas nos autocarros, a distribuir folhetos e a cantar rap sobre a situação do país e a importância do recenseamento, e depois sair algumas paragens mais à frente. Também colaboramos com a comunicação social e foram transmitidos programas e espectáculos na televisão onde aparecíamos em acções de sensibilização. 

Tiveram de enfrentar graves obstáculos – detenções, agressões físicas, perseguição, etc. Como é que conseguiram manter a vossa motivação e como é que as vossas famílias reagiram a tudo isso?
Não foi fácil. Primeiro, muitas das nossas famílias eram contra as nossas acções e tentaram dissuadir-nos de continuar porque pensavam que se iria tornar muito perigoso. Mas, devagar, e também com a ajuda da TV e da rádio, começaram a aperceber-se da importância da luta social. Temos um princípio: os interesses da nossa nação estão acima da nossa família. Um mês antes das eleições, já não vivíamos em casa porque decidimos que não nos iríamos deixar humilhar. Sabíamos que o bairro tinha sido infiltrado e que a polícia estava à nossa procura para colocar um fim ao movimento. Por isso, escondemo-nos, se nos queriam prender teria de ser em frente da comunicação social, à luz do dia, durante as manifestações, e não no silêncio da noite. E, quer fossemos presos ou não, sabíamos que nada pararia o movimento.

Quando o ex-presidente foi derrotado, sentiu que o vosso objectivo tinha sido alcançado? Qual é futuro do “Y’en a marre”?
Quero ser muito claro: o movimento não era especificamente contra o Presidente Wade. A ideia era o chamado NTS (Nouvelle Type Senegalais; Novo Tipo Senegalês), que vai muito para além de Abdoulaye Wade. Queríamos ver cidadãos que são responsáveis e conscientes, que participam na sociedade, que se preocupam onde deixam o seu lixo, que contribuem para a comunidade, etc. Não era só sobre política. O opositor de Wade, Macky Sall, visitou-nos e deixámos muito claro: não erámos seus apoiantes, mas erámos contra os actuais líderes. Dissemos-lhe: se for eleito, não queremos nada – não queremos carros vistosos nem empregos fáceis: só queremos que não esqueça do papel que as pessoas tiveram, o wallu askan wi, e que as promessas que lhes fez não devem ser esquecidas. Também lhe dissemos que não iríamos gostar do tipo de "lua de mel" que Wade teve durante o seu primeiro mandato, sem ser criticado e sem controlo, e que estaria sob um rígido olhar atento pelas próprias pessoas. Por isso, o trabalho continua, e temos ainda de alcançar o NTS.

As notícias sobre as concretizações do “Y’en a marre” espalharam-se e o movimento está agora também presente pelo menos no Mali e no Togo. Alguma vez imaginava que inspiraria os jovens fora das fronteiras do Senegal?
Os países na África Ocidental sofrem todos, mais ou menos, dos mesmos problemas, que é a governação e a liderança. Durante a assembleia preparatória para o Fórum Social Mundial, em Monastir, um dos líderes do “Y’en a marre” foi seleccionado para falar em nome do Comité Africano neste Fórum, transmitindo assim uma mensagem forte e mostrando que devem ser consideradas novas dinâmicas. Estamos também em contacto com a Costa do Marfim e alguns países europeus, por isso o movimento está a ser cada vez mais conhecido. Podemos mudar o curso da história!

Single do Y’en a marre’s “Faux! Pas forcer” : http://youtu.be/tCuKAn-T0pk