O Secretário-Geral Ban Ki-moon lançou hoje um apelo apaixonado no sentido de se chegar a um acordo na conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas em Cancun, dizendo aos delegados que novos atrasos irão comprometer a saúde do planeta, a economia mundial e o bem-estar da raça humana.
"Estou profundamente preocupado com a possibilidade de os nossos esforços não estarem a ser suficientes, com o facto de, apesar de todas as provas e de muitos anos de negociações, não estarmos ainda a mostrar-nos à altura do desafio", declarou Ban Ki-moon dirigindo-se ao segmento de alto nível da conferência, que teve início na cidade costeira mexicana em 29 de Novembro.
"Estamos aqui por uma razão: para proteger as pessoas e o planeta de alterações climáticas descontroladas. Para isso, é necessário fazermos progressos – nestas negociações e através das medidas nacionais que cada um de vós adoptar no vosso país para travar as emissões [de gases nocivos] e aumentar a resiliência".
"Quanto mais protelarmos, mais teremos de pagar – em termos económicos, em termos ambientais e em termos de vidas humanas", afirmou Ban Ki-moon.
O Secretário-Geral recordou que o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) já advertiu que as emissões mundiais de gases com efeito de estufa terão de atingir o seu pico dentro da próxima década e, depois, diminuir substancialmente, caso o mundo pretenda alcançar o objectivo de limitar o aumento médio da temperatura a 2ºC em relação aos níveis da era pré-industrial.
O Secretário-Geral observou que talvez não seja imediatamente possível chegar-se a um acordo final sobre todas as questões, mas salientou que, na conferência de Cancun, é necessário realizar progressos em várias frentes.
"Podeis tomar decisões importantes aqui em Cancun sobre as florestas, a adaptação, a tecnologia e a criação de um novo fundo para o financiamento da luta contra as alterações climáticas a longo prazo. É necessário também que façais progressos no que respeita à atenuação, à concretização dos vossos compromissos nacionais, à prestação de contas e à transparência, e a tornar mais claro o futuro do Protocolo de Quioto", acrescentou.
Nos termos do Protocolo de Quioto da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (CQNUAC), os países industrializados comprometeram-se a reduzir os gases com efeito de estufa. O Protocolo expira em 2012 e está a ser negociado um acordo destinado a substituí-lo.
Ban Ki-moon disse que apenas será possível obter resultados através de acções em todos os países e salientou que os efeitos adversos das alterações climáticas no planeta não ficarão à espera que as negociações sejam concluídas.
"Os cientistas advertem-nos de que a oportunidade que existe agora de impedir alterações climáticas descontroladas deixará de existir em breve. O mundo – especialmente as pessoas pobres e vulneráveis – não podem dar-se ao luxo de esperar pelo acordo perfeito. Não podemos deixar que o óptimo se torne inimigo do bom", acrescentou Ban Ki-moon.
Prosseguiu salientando algumas das iniciativas que a ONU empreendeu para combater as alterações climáticas. Entre elas incluem-se o programa ONU-REDD+, que se destina a criar incentivos para inverter a tendência para a desflorestação e conservar o carbono armazenado nas florestas, bem como a coligação de entidades das Nações Unidas que trabalham com o sector privado e os governos no sentido de garantir o acesso universal à energia e reduções significativas da intensidade energética nas próximas duas décadas.
"O meu Grupo Consultivo de Alto Nível sobre o Financiamento da Luta contra as Alterações Climáticas concluiu que é difícil, mas possível, os países desenvolvidos realizarem o objectivo de obter 100 mil milhões de dólares por ano até 2020 para apoiar a luta contra as alterações climáticas nos países em desenvolvimento. Incentivo as partes [na CQNUAC] a terem em conta as conclusões do Grupo Consultivo nas suas negociações sobre o financiamento da luta contra as alterações climáticas", disse Ban Ki-moon.
Sobre as alterações climáticas e as metas da luta contra a pobreza conhecidas como Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), Ban Ki-moon afirmou que não será possível erradicar a pobreza extrema sem combater a intensidade e imprevisibilidade crescentes das tendências meteorológicas associadas às alterações climáticas.
"Agora, mais do que nunca, temos de estabelecer a ligação entre o clima, a pobreza, a energia, a alimentação e os recursos hídricos. Estas questões não podem ser abordadas isoladamente", disse.
O Secretário-Geral recordou o caso de um adolescente que conhecera no Bangladeche e que sobrevivera às cheias que haviam inundado a sua aldeia, quando as torrentes de lama provenientes de terras desflorestadas quase arrastaram a casa em que vivia.
"Quando as águas das cheias começaram a recuar, eclodiu um surto de cólera. O rapaz sobreviveu. Muitos não", disse o Secretário-Geral.
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