O chefe do organismo das Nações Unidas responsável pelo ambiente está a pedir que sejam urgentemente definidas estratégias de adaptação, indo desde o planeamento urbano a um melhor armazenamento da água, a fim de fazer face ao aumento da precipitação e à diminuição dos glaciares, que representam uma ameaça para a segurança alimentar e os meios de vida de centenas de milhões, se não milhares de milhões, de pessoas.
"Mais de metade da população mundial vive nas bacias hidrográficas de grandes rios que nascem em montanhas onde existem glaciares e neve", diz Achim Steiner, Director Executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), no prefácio de um novo relatório intitulado High Mountain Glaciers and Climate Change: challenges to human livelihoods and adaptation.
"O aquecimento climático está já a provocar o recuo dos glaciares, e algumas zonas poderão perder completamente os seus glaciares durante este século".
Achim Steiner faz notar que, no mundo inteiro e, especialmente, na Ásia, as cheias afectam gravemente mais de 100 milhões de pessoas todos os anos, matando dezenas de milhares e aumentando os casos de doença e de falta de saúde quando as cidades com esgotos insuficientes, ou sem esgotos, são inundadas e a água para consumo humano fica poluída.
"Isto é uma mensagem crucial para todos os países envolvidos", escreve Steiner. "As alterações da intensidade e ocorrência de chuvas, aliadas à fusão variável das neves e glaciares, comprometerão progressivamente a segurança alimentar e os meios de vida das pessoas mais vulneráveis em diversos cenários de alterações climáticas".
"Considerando que as populações urbanas deverão quase duplicar, ultrapassando os 6 mil milhões dentro de 40 anos, e atendendo às pressões crescentes sobre os solos nas colinas circundantes, é urgentemente necessário formular estratégias de adaptação, e as mulheres muitas vezes desempenham um papel fulcral ajudando as famílias a adaptar-se".
Estas estratégias devem ter um âmbito alargado, abrangendo o planeamento urbano, um melhor armazenamento da água e a eficiência hídrica na agricultura, bem como a recuperação de ecossistemas críticos como as florestas e as terras húmidas, que podem contribuir para o aumento das reservas de água e funcionar como zonas-tampão, atenuando os efeitos de eventos climáticos extremos como as cheias.
O relatório, preparado com base em informação fornecida por cientistas e centros de investigação do mundo inteiro, nomeadamente o Instituto Polar da Noruega e o instituto de investigação Norut Alta, salienta que embora os sistemas de glaciares sejam inerentemente muito complexos e muito diversos, existem tendências gerais claras que indicam que o recuo dos glaciares se deverá acelerar nas próximas décadas, no mundo inteiro.
"Um dos principais desafios das próximas décadas será conseguir captar e armazenar o excesso de água em períodos de grande abundância", diz o relatório. "Iremos provavelmente assistir a um aumento substancial da fusão, bem como a eventos extremos de precipitação. Atendendo às grandes pressões da utilização dos solos em muitas regiões de montanha, resultantes nomeadamente da desflorestação e da pastagem intensiva, e à precipitação extrema, as enxurradas e as cheias irão provavelmente aumentar".
"O armazenamento do excesso de água, a adaptação às cheias e o desenvolvimento e implantação de sistemas de irrigação mais eficazes serão cruciais para a segurança alimentar no futuro, nas regiões que utilizam a água proveniente das montanhas".
O relatório refere que os glaciares da Patagónia argentina e chilena, seguindo-se os do Alasca e das cordilheiras costeiras, estão a perder massa mais rapidamente e há mais tempo do que os de outras partes do mundo.
Em terceiro lugar, em termos de ritmo de perda de massa, situam-se os glaciares do Noroeste dos Estados Unidos e do Sudoeste do Canadá, seguindo-se os das montanhas da Ásia, incluindo o Hindu Kush dos Himalaias, e os do Árctico e dos Andes.
Na Europa, a massa dos glaciares estava, de um modo geral, a aumentar desde meados de década de 1970, uma tendência que se inverteu por volta do ano 2000. Embora a tendência global seja para uma diminuição, os maiores níveis de precipitação em alguns locais traduziram-se num aumento da massa dos glaciares e, em alguns casos, da sua dimensão, nomeadamente na zona ocidental da Noruega, na ilha do Sul da Nova Zelândia e em partes da Terra do Fogo, na América do Sul.
Algumas cadeias montanhosas estão a sofrer efeitos aparentemente contraditórios. Nalgumas zonas pequenas da cordilheira de Karakoram, na Ásia, por exemplo, o avanço dos glaciares já abrange zonas onde não havia gelo há cerca de 50 anos, enquanto nas cordilheiras de Tianshan e dos Himalaias, os glaciares estão a recuar – alguns deles rapidamente.
A fusão dos glaciares poderá causar, em alguns locais e talvez dentro de poucas décadas, uma redução dos recursos hídricos de zonas secas – por exemplo, na Ásia Central e em partes dos Andes. Nas regiões secas da Ásia Central, Chile, Argentina e Peru, onde há pouca precipitação, o recuo dos glaciares terá um impacto muito maior na disponibilidade sazonal de água do que na Europa ou em partes da Ásia, onde as chuvas das monções têm um papel muito mais importante.
Muitos glaciares poderão levar séculos a desaparecer por completo, mas outros mais pequenos, em zonas de baixa altitude, que são frequentemente uma fonte de água vital em zonas secas, estão a fundir-se muito mais rapidamente, diz o relatório. A maioria dos glaciares está a diminuir desde os finais da Pequena Idade do Gelo, há aproximadamente 150 anos, mas o ritmo de perda tem aumentado consideravelmente em muitas regiões, desde o início da década de 1980.
Em algumas regiões, é muito provável que os glaciares desapareçam em grande medida até ao final deste século, enquanto noutras os glaciares irão subsistir durante muitos séculos, mas com uma dimensão reduzida.
A fusão dos glaciares poderá levar à formação de lagos represados por paredes de lama, terra e pedras, contendo por vezes milhões de toneladas de água, que poderão pôr em risco aldeias e infra-estruturas como centrais de electricidade, acrescenta o relatório.
(Baseado numa notícia divulgada pelo Centro de Notícias da ONU a 07/12/2010)
Alterações Climáticas