(Genebra, 7 de Abril de 2005) – Depois de ter apresentado, em 21 de Março último, o seu relatório sobre a reforma das Nações Unidas, Kofi Annan manifestou-se hoje, em Genebra, a favor do reforço do Alto Comissariado dos Direitos Humanos e de uma reforma profunda da Comissão de Direitos Humanos, “que perdeu a sua credibilidade” e que, no seu entender, deveria ser substituída por um Conselho de Direitos Humanos, “restrito” e “responsável”.
Falando perante os 53 membros da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, o Secretário-Geral afirmou: “se não reconstruirmos os mecanismos de direitos humanos da ONU, não poderemos reforçar a confiança do público na Organização”.
“A era das declarações deveria dar lugar a uma era orientada para a aplicação”, acrescentou, referindo-se aos 60 anos de articulação, codificação e consagração dos direitos humanos.
“Hoje, chegámos a um momento em que temos de provar o nosso compromisso”, disse, recordando “a nossa incapacidade colectiva de proteger centenas de milhar de pessoas indefesas” nos massacres perpetrados no Ruanda e a decisão não permitir que a situação se voltasse a repetir.”
E, no entanto, na região de Darfur, no Sudoeste do Sudão, onde o Governo, milícias e forças rebeldes estão envolvidos num conflito que já matou dezenas de milhar de pessoas e causou cerca de 2 milhões de desalojados, assiste-se a um “sofrimento horrível”; as forças da União Africana no terreno são demasiado reduzidas para garantir a segurança e praticamente não se registam avanços em direcção a uma solução política.
”Para todos nós, como indivíduos e como instituição, esta situação é um teste. Para milhares de homens, mulheres e crianças, a nossa resposta chega já tarde de mais”, sublihou Kofi Annan.
“Chegámos a um ponto em que a perda de credibilidade da Comissão ensombra a reputação do Sistema das Nações Unidas como um todo, em que as reformas parciais não são suficientes” acrescentou.
A criação de um Conselho de Direitos Humanos proporciona, na opinião do Secretário-Geral, um quadro conceptual e uma arquitectura clara. Mas o que é mais importante é a capacidade de o novo órgão corresponder às tarefas que lhe são pedidas, declarou, realçando que deve poder reunir-se sempre que necessário e não só durante seis semanas por ano, com a tarefa explícita de avaliar o cumprimento dos deveres em matéria de direitos humanos por parte de todos os Estados, como acontece actualmente.
“Isto daria uma expressão concreta ao princípio da universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos”, disse, referindo-se às suas propostas, que englobam também um reforço dos órgãos que fiscalizam a aplicação dos tratados de direitos humanos, e o aumento dos fundos destinados ao Alto Comissariado para os Direitos Humanos, para o qual são hoje apenas canalizados 2% do orçamento ordinário da ONU. “Este gabinete continua a estar insuficientemente equipado. Não pode, por exemplo, lançar um alerta rápido, apesar de as violações dos direitos humanos serem, com frequência, os primeiros sinais a anunciar a instabilidade.”
“Durante a sua sessão anual, a Comissão de Direitos Humanos chama a atenção do público para questões e debates ligados aos direitos humanos, fornece um quadro para a elaboração das políticas da ONU em matéria de direitos humanos e estabelece um sistema único de procedimentos penais independentes, realizados por peritos, para a observação e análise do respeito pelos direitos do homem por tema e por país”, lembrou.
No entanto, a capacidade da Comissão no que se refere à realização dessa tarefa é cada vez mais afectada pela desgaste da sua perda de credibilidade e pelo seu baixo nível de competência profissional, afirma o Secretário-Geral no seu relatório “Em maior liberdade: desenvolvimento, segurança e direitos humanos para todos”, que ontem apresentou em Genebra. Acrescentou: “
“Os Estados-membros deveriam acordar substituir a Comissão de Direitos Humanos por um Conselho permanente de Direitos Humanos, composto por um número inferior de membros”.
Kofi Annan preconiza que os seus membros sejam eleitos directamente pela Assembleia Geral, por uma maioria de dois terços dos membros presentes e votantes, a fim de os tornar mais responsáveis. Os membros deverão ser escolhidos entre os Estados que respeitam as normas mais elevadas no domínio dos direitos humanos.
O Secretário-Geral propõe que o Conselho de Direitos Humanos tenha capacidade de chamar a atenção para crises urgentes e examinar periodicamente os relatórios dos países.
“Os nossos cidadãos não compreenderão e não aceitarão desculpas, se não agirmos”, disse.
Durante a conferência de imprensa, tendo sido interrogado sobre a possibilidade de o Alto Comissariado dos Direitos Humanos ser transferido para Nova Iorque, se o Conselho de Direitos Humanos vier a ser criado, o Secretário-Geral respondeu que “o Alto Comissariado está muito bem em Genebra”.
(Baseado numa notícia produzida pelo Centro de Notícias da ONU, 7/04/2005).