Na quarta-feira, 22 de Junho, deslocar-me-ei a Bruxelas, a fim de me reunir com os representantes de mais de 80 governos e instituições, para transmitir uma mensagem clara e enérgica de apoio à transição política no Iraque.
Há um ano, na sua resolução 1546, o Conselho de Segurança fixou o calendário que se esperava que o Iraque cumprisse, com a assistência das Nações Unidas e da comunidade internacional. A conferência de Bruxelas é uma oportunidade para reafirmar aos Iraquianos que a comunidade internacional está ao seu lado nos corajosos esforços que realizam para reconstruir o seu país e que reconhece todos os progressos que conseguiram, apesar de todas as dificuldades que enfrentam.
Em Janeiro passado, realizaram-se as eleições, conforme estava previsto. Três meses depois, a Assembleia Nacional de transição confirmou o Governo de transição. Os partidos dominantes encetaram negociações inclusivas, em que a maneira de chegar a um entendimento com os árabes sunitas é um dos temas principais. Um grande número de grupos e partidos sunitas trabalha agora para assegurar que as suas vozes sejam realmente ouvidas, no processo de redacção da nova constituição, e garantir que participem plenamente no referendo de aprovação do texto, bem como nas eleições previstas para Dezembro.
De facto, foi concluído, na semana passada, um acordo que prevê o alargamento do comité de redacção da constituição, para que a comunidade árabe sunita possa estar nele devidamente representada. Tal acordo, que a ONU ajudou a alcançar, deveria incentivar todos os Iraquianos a prosseguirem a redacção do projecto de constituição, a fim de que possa estar terminada no prazo previsto, isto é, até 15 de Agosto.
À medida que o processo for avançando, haverá, certamente, atrasos frustrantes e reveses difíceis. Mas não percamos de vista o facto de, em todo o Iraque, hoje em dia, os Iraquianos estarem a debater quase todos os aspectos do seu futuro político.
Um amplo espectro da população iraquiana tem vindo a pedir encarecidamente à ONU que ajude o país a manter o impulso, como fez quando das eleições de Janeiro. Procuraram o nosso apoio para elaborar a constituição, preparar o referendo de Outubro e as eleições de Dezembro e coordenar a assistência dos doadores à transição política bem como à reconstrução e ao desenvolvimento.
A nossa resposta foi pronta e decidida. Criámos um mecanismo de coordenação dos doadores, em Bagdade, introduzimos um Grupo de Apoio Constitucional e estabelecemos uma colaboração activa com o Comité Constitucional da Assembleia. Actualmente, mais de 800 funcionários das Nações Unidas, contratados a nível local e internacional, entre os quais figuram agentes de segurança, prestam serviço no Iraque, no quadro do Missão de Assistência da ONU.
Numa época ávida da mensagem dos media, a notoriedade é, com frequência, considerada como uma prova de êxito. Mas este critério não é necessariamente válido no caso do Iraque. Mesmo quando os resultados dos nossos esforços são bem visíveis, como aconteceu com o acordo da semana passada, esses esforços devem ser realizados sem alarde e longe das câmaras.
A eficácia da assistência da ONU dependerá, em grande medida, dos próprios Iraquianos. Só eles podem redigir uma constituição justa e inclusiva. A ONU não pode redigi-la por eles, nem precisa de o fazer, porque os Iraquianos são perfeitamente capazes de a elaborar. Embora aceitem conselhos, eles próprios decidirão quais os conselhos que vale a pena seguirem.
O compromisso entre as diferentes comunidades do Iraque será tão importante como as disposições do texto constitucional. O meu Representante Especial Ashraf Qazi tem incentivado e facilitado a delicada tarefa de aproximação política entre todas as comunidades iraquianas, a fim de promover uma transição que não exclua nenhum grupo. O seu trabalho é realizado também, necessariamente, longe do olhar dos meios de comunicação, já que se esforça por estabelecer, entre os diversos grupos do eleitorado, a confiança e o entendimento que são indispensáveis para o êxito da transição prevista pela resolução 1546 (2004) do Conselho de Segurança.
Há, evidentemente, grupos que desejam exacerbar as tensões inter-étnicas e impedir a criação de um Iraque democrático, pluralista e estável. Tentam aproveitar-se das graves dificuldades que o comum dos Iraquianos encontra e do ressentimento da população, para fomentar o ódio e a violência. Vê-se todos os dias o seu trabalho, nas ruas do Iraque.
Não creio que o reforço das medidas de segurança possa por si só dar uma resposta adequada à situação. Para que obtenham o resultado pretendido, essas medidas devem inserir-se numa estratégia global que abranja a transição política, o desenvolvimento, os direitos humanos e a criação de instituições, para que todos os Iraquianos, independentemente do grupo a que pertencem, vejam que têm a ganhar com o novo Iraque. Essas iniciativas devem ser apoiadas por medidas que permitam que o Iraque lide com o seu passado torturado, um passado que ainda incita à vingança e que, se não for enfrentado, será a desgraça das gerações futuras. Se esta já é uma tarefa difícil para qualquer sociedade em transição, ainda o é muito mais em condições tão perigosas como as que existem, hoje em dia, em algumas regiões do Iraque.
A fim de facilitar a transição, a ONU trabalha, tanto dentro como fora do país, para apoiar a coordenação dos doadores, desenvolver a capacidade dos ministros iraquianos e das organizações da sociedade civil do país e prestar serviços básicos. A reconstrução de escolas, de estações de tratamento de águas residuais, de centrais eléctricas e de linhas de transmissão, a assistência alimentar a crianças, a desminagem e a ajuda a centenas de milhar de refugiados e de deslocados que regressam aos seus lares são actividades realizadas todos os dias, no Iraque, sob a direcção das Nações Unidas.
A transição continua a ser dolorosa e difícil para os Iraquianos, que têm pela frente um caminho longo e duro. A ONU considera um privilégio caminhar ao seu lado e está decidida a fazê-lo. Estaremos, assim, a servir não só o povo iraquiano mas também todos os outros povos, que têm o maior interesse em que surja um Iraque estável, pacífico e democrático, no coração do Médio Oriente.
* Publicado em Portugal pelo jornal Público a 22/06/2005