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Como se avalia o êxito de uma operação de manutenção da paz? Pode citar alguns exemplos recentes?
 

Pode dizer-se que uma operação de manutenção da paz foi bem sucedida a curto prazo, se o mandato que lhe foi conferido pelo Conselho de Segurança foi eficazmente cumprido. Mas, em última análise, a acção das Nações Unidas numa situação pós-conflito será julgada pela capacidade que o país em causa venha a demonstrar de manter a paz e a estabilidade a longo prazo e de enveredar pela via da reconstrução e do desenvolvimento.

Há exemplos de que a ONU se pode orgulhar: o Departamento de Manutenção da Paz ONU ajudou a transição para um governo democrático na Namíbia e apoiou processos semelhantes de transição em El Salvador, na Nicarágua e na Guatemala. Os capacetes azuis da ONU vigiaram a retirada das forças estrangeiras do Camboja e organizaram as eleições de 1993 que afastaram finalmente os Khmer Rouge do poder. A ONU abriu caminho para uma paz que levou o crescimento económico sustentado a Moçambique e ajudou este país a tornar-se um símbolo da esperança em África. A ONU guiou Timor Leste no caminho que conduziu à independência, em 2002, e, mais recente, concluiu com êxito o seu mandato na Serra Leoa.

Pelo contrário, alguns países onde foram levadas a cabo operações de manutenção da paz voltaram a mergulhar num conflito alguns anos depois de a missão da ONU ter terminado. "Operações bem sucedidas… em que o doente morre", eis como o Secretário-Geral Adjunto Guéhenno designa essas missões. O Haiti e a Libéria, na década de 90, representaram duas situações em que houve lacunas entre o trabalho de estabilização da segurança, que está tradicionalmente no centro do esforço de manutenção da paz, e o trabalho de consolidação da governação e de desenvolvimento, que antes não era considerado uma parte da manutenção da paz. Devido a isso, a ONU teve de lançar, em ambos os países, novas missões de manutenção da paz, com mandatos mais amplos do que os das anteriores.

Um exemplo recente em que, após a acção de manutenção da paz da ONU, a situação descarrilou ocorreu em Timor Leste, na Primavera de 2006, um ano depois de a Organização ter ali concluído uma missão de manutenção da paz aparentemente bem sucedida. Quando a violência voltou a eclodir no país, o Secretário-Geral disse que a ONU deveria analisar criteriosamente o seu papel no passado recente e avaliar cuidadosamente se retirara demasiado cedo as suas forças de manutenção da paz. Entretanto, o UNOTIL – o Gabinete das Nações Unidas em Timor Leste – tem continuado e continuará a cumprir o seu mandato de apoio político, até que o Conselho de Segurança tome uma decisão sobre qual o tipo de ajuda suplementar que a ONU poderia prestar a Timor Leste nos próximos meses, a fim de lhe permitir enfrentar a situação, se vierem a registar-se acontecimentos inesperados.

A consolidação da paz a partir das cinzas da guerra exige tempo, pelo que a comunidade internacional deve estar disposta a trabalhar com instituições locais até estas estarem prontas para assumir a responsabilidade por um governo democrático, pelo estado de direito e pelo desenvolvimento económico continuado. As operações de manutenção da paz devem estar associadas a um plano que vise a consecução de uma verdadeira estabilidade a longo prazo. As operações de manutenção da paz recentemente concluídas na Serra Leoa e em Timor Leste incorporavam estratégias internas de consolidação da paz que estão a ser aplicadas actualmente.